Frankenstein

Mary Shelley

Mary Shelley, no pico dos seus extraordinários 18 anos, escolheu "O Prometeu Moderno" para subtítulo do seu Frankenstein. Perdeu-se nas contracurvas do tempo esta face da narrativa - Frankenstein tornou-se a designação do monstro, o nome de Viktor desvaneceu-se, e com ele o seu destino de Prometeu, que também poderia ser o de um Ícaro que sobrevive à queda ou o de um Sísifo esmagado pelo seu próprio rochedo.
Este é um livro sobre o remorso. É um livro sobre a tomada de consciência do contributo da ambição individual para a realidade irremediavelmente exposta a ela própria. Viktor, cego pelo entusiasmo, rompe o véu entre a vida e a morte e, com ele, o véu entre o seu passado de promessa e o seu futuro de ruína. O seu "demónio", pedra atirada ao charco, torna-se, uma vez livre, uma ameaça não apenas para si, mas também para os seus - e a recompensa pela concretização do seu sonho é-lhe entregue sob a forma de desolação. Viktor Frankenstein é uma personagem que se divide em duas: a do cientista ambicioso namorado pelos media modernos e a do jovem esmagado pelo arrependimento que não atrai Hollywood. A voz do segundo é, contudo, a mais prevalente na narrativa original, angustiada e dolorida. Tal como o jovem assassino do romance russo que seria publicado meio século depois, Viktor vive sob o peso de ações de que se arrepende, mas em relação às quais não encontra meio de fuga, confessionário ou expiação. A sensação de vigilância e de claustrofobia que se metastisa, neste romance, até aos espaços abertos deve-se, portanto, ao facto de o enredo orbitar em torno de uma perseguição dupla: a de Viktor pelo monstro e a de Viktor por ele mesmo.
É um livro sobre a impossibilidade de controlo de um criador sobre a sua criação, sobre a diferença inevitável entre a criatura etimológica e a criatura lexicalizada - entre o que se queria que fosse e o que efetivamente vem a ser. Essa dissonância manifesta-se desde o momento em que Frankenstein vê o seu monstro pela primeira vez e se apercebe do seu aspeto aterrorizante e estende-se, ao longo de toda a obra, ao choque entre a projeção sonhada e gloriosa de Viktor e o rasto de destruição que este receia e abomina. "You are my creator, but I am your master", afirma o monstro, destruindo e reconstruindo a relação de poder entre ele e aquele que, tendo-o criado, deixou de poder controlar os seus pensamentos e ações.
É, ainda, um livro sobre a bondade inocente no seio de um ser consciente e pré-social. Retomando o pensamento de Rousseau, segundo o qual o homem não é mau até ser corrompido pela sociedade, o monstro de Frankenstein apenas se torna violento e vingativo quando se reconhece vítima da insensibilidade humana. Repelido e agredido, regressa ao seu criador, sua causa primeira, em busca de reconhecimento e consolo - mas nem aí os encontra. Sendo fruto da amálgama de partes humanas, é humana a sua índole, e social a sua natureza; a mesma que, espezinhada, resulta na explosão violenta dos sentimentos intempestivos de um ser irremediavelmente só. Afinal, o monstro de Frankenstein é apenas tão monstruoso quanto o desprezo a que é votado o faz ser.
Distanciemo-nos, pois, das recomendações literárias sazonais que engavetam Frankenstein nos finais de tarde do outono-inverno e acolhamos, em qualquer época, a bondade e a misericórdia que merecem aqueles que não fazem menos do que o melhor que sabem.

© 2020 Helena Rodrigues, Portugal
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